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6 - VERBO

 Verbo é a palavra que, exprimindo ação ou apresentando estado ou
mudança de um estado a outro, pode fazer indicação de pessoa, número,
tempo, modo e voz.
Cantaremos é uma forma verbal, porque exprime uma ação (a de cantar), exercida (referência à voz) pela 1.a pessoa (referência à pessoa) do plural (referência ao número), do presente (referência ao tempo) do indicativo (referência ao modo).

As pessoas do verbo. - Geralmente as formas verbais indicam as três
pessoas do discurso, para o singular e o plural:

1.a pessoa do singular: eu canto
2.a pessoa do singular: tu cantas
3.a pessoa do singular: ele canta
   
1.a pessoa do plural: nós cantamos
2.a pessoa do plural: vós cantais
3.a pessoa do plural: eles cantam

Os tempos do verbo. - São:

a) PRESENTE - em referência a fatos que se passam ou se estendem ao momento em que falamos:

eu canto;

b) PRETÉRITO - em referência a fatos anteriores ao momento em que
falamos e subdividido em imperfeito, perfeito e mais-que-perfeito:

cantava (imperfeito),
cantei (perfeito) e
cantara (mais-que-perfeito);

c) FUTURO - em referência a fatos ainda não realizados e subdividido em futuro do presente e futuro do pretérito:

cantarei (futuro do presente),
cantaria (futuro do pretérito).

Os modos do verbo. - São:

a) INDICATIVO - em referência a fatos reais:

canto, cantei, cantarei


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b) SUBJUNTIVO - em referência a fatos duvidosos, prováveis, possíveis, etc.

talvez cante, se cantasse

C) IMPERATIVO - exprime ordem, pedido, convite, conselho, súplica, etc.:

cantai.

As vozes do verbo. - São:

a) ATIVA : forma em que o verbo se apresenta para normalmente indicar que a pessoa a que se refere pratica a ação. A pessoa diz-se neste caso, agente da ação verbal:

eu escrevo a carta, tu visitaste o primo, nós plantaremos a árvore.

b) PASSIVA: forma verbal que indica que a pessoa recebe a ação verbal. A pessoa, neste caso, diz-se paciente da ação verbal:

A carta é escrita por mim, o primo foi visitado por ti, a árvore será plantada por nós.

A passiva pode ser analítica (formada com um dos verbos ser, estar, ficar seguido de particípio) ou pronominal (formada com verbo acompanhado do pronome oblíquo se, que se chama, no caso, pronome
apassivador
):

A casa foi alugada (passiva analítica).
Aluga-se a casa (passiva pronominal).

A passiva analítica difere da passiva pronominal em dois pontos:

1) pode apresentar o verbo em qualquer pessoa, enquanto a pronominal
só se constrói na 3.a pessoa:

Eu fui visitado pelos meus parentes.
Nós fomos visitados pelos parentes.

2) pode seguir-se de uma expressão que denota o agente da passiva, enquanto a pronominal, no português moderno, a dispensa obrigatoriamente:

Eu fui visitado pelos parentes.
Aluga-se a casa (não se diz aluga-se a casa pelo proprietário).

OBSERVAÇÃO: Em construções do tipo batizei-me, chamas-te José, há professores que vêem passiva pronominal com pronomes oblíquos de 1.a e 2.a pessoa. Outros, porém, não pensam assim, e interpretam o fato como um emprego da voz reflexiva, indicando "uma atitude de aceitação consciente do nome dado ou do batismo recebido" (J. MATOSO CÂMARA, Dicionário, 36).

c) REFLEXIVA: forma verbal que indica que a pessoa é, ao mesmo tempo, agente e paciente da ação verbal, formada de verbo seguido de
pronome oblíquo de pessoa igual à que o verbo se refere:

eu me visto, tu te feriste, ele se enfeita


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O verbo empregado na forma reflexiva diz-se pronominal.

Observações:

1.a) Com verbos como atrever-se, indignar-se, queixar-se, ufanar-se,
admirar-se
, não se percebe mais a ação rigorosamente reflexa, mas a indicação de que a pessoa a que o verbo se refere está vivamente afetada. Com os verbos de movimento ou atitudes da pessoa "em relação ao seu próprio corpo" como ir-se, partir-se, e outros como servir-se, onde o pronome oblíquo empresta maior expressividade à frase, também não se expressa a ação reflexa. Alguns gramáticos chamam ao pronome oblíquo, nestas últimas circunstâncias, pronome de realce.

2.a) A voz reflexiva, no plural, pode assumir sentido de reciprocidade:

Eles se odeiam (isto é, um odeia o outro).

Voz passiva e passividade. - É preciso não confundir voz passiva e passividade. Voz é a forma especial em que se apresenta o verbo para
indicar que a pessoa recebe a ação:

Ele foi visitado pelos amigos.
Alugam-se bicicletas.

Passividade é o fato de a pessoa receber a ação verbal. A passividade pode traduzir-se, além da voz passiva, pela ativa, se o verbo tiver sentido passivo:

Os criminosos recebem o merecido castigo.

Portanto nem sempre a passividade corresponde a voz passiva (1).

(1) Assim sendo, não se pode falar em voz passiva diante de linguagens do tipo osso duro de roer. Houve aqui, se interpretarmos roer = de ser roído, apenas
passividade, com verbo na voz ativa. Sobre o sentido ativo ou passivo do infinitivo, veja-se página 244.

Formas nominais do verbo. - Assim se chamam o infinitivo, o particípio e o gerúndio, porque, ao lado do seu valor verbal, podem desempenhar função de nomes. O infinitivo pode ter função de substantivo (recordar é viver = a recordação é vida); o particípio pode valer por um adjetivo (homem sabido) e o gerúndio por um advérbio ou adjetivo (amanhecendo, sairemos = logo pela manhã sairemos; água fervendo = água fervente). Nesta função adjetiva o gerúndio tem sido apontado como galicismo; porém, é antigo na língua este emprego.
As formas nominais do verbo, com exceção do infinitivo, não definem as pessoas do discurso e, por isso, são ainda conhecidas por formas infinitas.
Possuem desinências nominais idênticas às que caracterizam a flexão dos
nomes.
O infinitivo português, ao lado da forma infinita, isto é, sem indicação da pessoa do discurso, possui outra flexionada:

Infinito sem flexão Infinito flexionado
Cantar Cantar eu
  Cantares tu
  Cantar ele
   
  Cantarmos nós
  Cantardes vós
  Cantarem eles

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As formas nominais do verbo se derivam do tema (radical + vogal temática) acrescido das desinências:
a) -r: para o infinitivo: cantar, vender, partir.
b) -do: para o particípio: cantado, vendido (cf. pág. 113), partido).
c) -ndo: para o gerúndio: cantando, vendendo, partindo.

Observação: O verbo vir (e derivados) forma também o seu particípio com
a desinência -do; mas, pelo desaparecimento da vogal temática i, apresenta-se igual ao gerúndio: vindo (por vin-i-do) e vindo (vi-ndo).

Conjugar um verbo. - É dizê-lo, de acordo com um sistema determinado, em todas as suas formas nas diversas pessoas, números, tempos, modos e vozes.
Em português temos três conjugações caracterizadas pela vogal temática:
1.a conjugação - vogal temática a: amar, falar, tirar.
2.a conjugação - vogal temática e: temer, vender, varrer.
3.a conjugação - vogal temática i: partir, ferir, servir.

Observação: Não existe a 4.a conjugação; por é um verbo da 2.a conjugação
cuja vogal temática desapareceu no infinitivo.

Verbos regulares, irregulares e anômalos. - Díz-se que um verbo é regular quando se apresenta de acordo com o modelo de sua conjugação:

cantar, vender, partir.

No verbo regular também o radical não varia.Tem-se o radical de um verbo privando-o, no infinito sem flexão, das terminações -ar, -er, -ir:
am-ar, fal-ar, tir-ar, tem-er, vend-er, varr-er, part-ir, fer-ir, serv-ir.

Irregular é o verbo que, em algumas formas, apresenta variação no radical ou na flexão, afastando-se do modelo da conjugação a que pertence:
a) variação no radical em comparação com o infinitivo:
ouvir - ouço; dizer - digo; perder - perco;

b) variação na flexão, em relação ao modelo:
estou (veja-se canto), estás (veja-se cantas, um tônico e outro átono).

Os irregulares se dividem em fracos e fortes. Fracos são aqueles cujo radical do infinitivo não se modifica no pretérito:
sentir - senti; perder - perdi.

Fortes são aqueles cujo radical do infinitivo se modifica no pretérito perfeito:
caber - coube; fazer - fiz.

Os irregulares fracos apresentam formas iguais no infinitivo flexionado e futuro do subjuntivo:

Infinitivo Futuro do Subjuntivo
Sentir Sentir
Sentires Sentires
Sentir Sentir
   
Sentirmos Sentirmos
Sentirdes Sentirdes
Sentirem Sentirem

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Os irregulares fortes não apresentam identidade de formas entre o infinitivo flexionado e o futuro do subjuntivo.

Infinito flexionado Futuro do Subjuntivo
Caber Couber
Caberes Couberes
Caber, etc. Couber, etc.

Observação: Não entram no rol dos verbos irregulares aqueles que, para
conservar o som, têm de sofrer variação de grafia:

carregar - carrego - carreguei - carregues
ficar - fico - fiquei - fique

Não há portanto os irregulares gráficos.

Anômalo é o verbo irregular que apresenta, na sua conjugação, radicais
primários diferentes: ser (reúne o concurso de dois radicais, os verbos latinos sedēre e ěsse) e ir (reúne o concurso de três radicais, os verbos latinos ire, vadēre e ěsse).
Outros autores consideram anômalo o verbo cujo radical sofre alterações que o não podem enquadrar em classificação alguma:

dar, estar, ter, haver, ser, poder, ir, vir, ver, caber, dizer, saber, por, etc.

Verbos defectivos e abundantes. - Defectivo é o verbo que, na sua conjugação, não apresenta todas as formas:

colorir, precaver-se, reaver, etc.

A defectividade verbal é devida a várias razões, entre as quais a eufonia e a significação. Entretanto, a defectividade de certos verbos não se assenta em bases lógicas. Se a tradição da língua dispensa, por dissonante, a 1.a pessoa do singular do verbo colorir (coloro), não se mostra igualmente exigente com a 1.a pess. do singular do verbo colorar. Por outro lado, o critério de eufonia pode variar com o tempo e com o gosto dos escritores; daí aparecer de vez em quando uma forma verbal que a gramática diz não ser usada.

Quase sempre faltam as formas rizotônicas dos verbos defectivos. Suprimos, quando necessário, as lacunas de um defectivo empregando um sinônimo (derivado ou não do defectivo):

Eu recupero (para reaver); eu redimo (para remir).

Há os seguintes grupos de verbos defectivos, em português:
a) os que não se conjugam nas pessoas em que depois do radical aparecem a ou o :

banir, brandir, carpir, colorir, delir, explodir, fremer (ou fremir), haurir, ruir,
exaurir, abolir, demolir, puir, delinqüir, fulgir, feder, aturdir, bramir, jungir, esculpir,
extorquir, impingir, pruir, retorquir, soer, espargir.

Tais verbos também não se empregam no pres. do subjuntivo, imperativo
negat., e no imperat. afirmat. só apresentam as segundas pessoas do
sing. e pl.
 


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b) os que se usam unicamente nas formas em que depois do radical
vem i :
adir, aguerrir, emolir, empedernir, esbaforir, espavorir, exinanir, falir, fornir, remir,
ressequir, revelir, vagir, florir, renhir, garrir, inanir, ressarcir, transir, combalir.

c) oferecem particularidades especiais:

1 - precaver (-se) e reaver. No pres. ind. só. têm as primeiras pessoas do plural: precavemos, precaveis; reavemos, reaveis.

Imperativo: precavei, reavei.

Faltam-lhes o imperat. neg. e pres. do subj. No restante conjugam-se normalmente.

2 - adequar, antiquar : cabem-lhes as mesmas observações feitas ao
grupo anterior.

3 - grassar e rever (=destilar): só se usam nas terceiras pessoas.


OBSERVAÇÕES:

1.a) Muitos verbos apontados outrora como defectivos são hoje conjugados
integralmente:
agir, advir, compelir, desmedir-se, discernir, embair, emergir, imergir, fruir,
polir, prazer, submergir
. Ressarcir (cf. b) e refulgir (que alguns gramáticos só mandam conjugar nas formas em que o radical é seguido de e ou i) tendem a ser
empregados como verbos completos.

2.a) Os verbos que designam vozes de animais geralmente só aparecem nas terceiras pess. do sing. e plural, em virtude de sua significação, e são arrolados
como defectivos.

3.a) Também são considerados defectivos os verbos impessoais (pois não
se referem a sujeito), que só são empregados na terceira pess. sing.: Chove muito,
Relampeja.
Quando em sentido figurado, os verbos desta observação, como os da anterior,
conjugam-se em quaisquer pessoas: Chovam as bênçãos do céu.

ABUNDANTE é o verbo que apresenta duas ou três formas de igual valor e função: havemos e hemos; constrói e construi; pagado e pago; nascido, nato, nado (pouco usado).

Normalmente esta abundância de forma ocorre no particípio.
Os principais verbos que gozam deste privilégio, no português moderno são:

a) comprazer e descomprazer:

Pret. perf. ind. : comprazi, comprazeste, comprazeu, etc. ou comprouve, comprouveste, comprouve, etc.
M.-q-perf. ind. : comprazera, comprazeras, comprazera, etc. ou comprouvera,
comprouveras, comprouvera, etc.
Imperf. subj. : comprazesse, comprazesses, comprazesse, etc. ou comprouvesse,
comprouvesses, comprouvesse, etc.
Fut. subj. : comprazer, comprazeres, comprazer, etc. ou comprouver, comprouveres, comprouver, etc.
 


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b) construir e seu grupo:
Pres. ind. : construo, construis (ou constróis), construi (ou constrói),
construímos, construis, construem (ou constroem).
Imper. afirm. : construi tu (ou constrói).
Assim se conjugam desconstruir, destruir, estruir, reconstruir.

c) entupir e desentupir:
Pres. ind. : entupo, entupes (ou entopes), entupe (ou entope), entupimos,
entupis,entupera (ou entopem).
Imper. afirm. : entupe (ou entope), entupi.

OBSERVAÇÃO: O o das formas abundantes é de timbre aberto.

d) haver:
Pres. ind. : hei, hás, há, havemos (ou hemos), haveis (ou heis), hão.
Imper. afirm. : há, havei.

e) ir:
Pres. ind. : vou, vais, vai, vamos (ou imos), ides (is é forma antiga), vão.

f) querer e requerer:
Pres. ind.: quero, queres, quer (ou quere), queremos, quereis, querem,
requeiro, requeres, requer (ou requere), requeremos, requereis, requerem.

Quere e requere são formas que só têm curso em Portugal; quere é criação
recente (séc. xix-xx, sem adoção geral) e requere é forma já antiga na língua,
sendo requer de data recente.

g) valer:
Pres. ind. : valho, vales, vale (ou val), valemos, valeis, valem.
Val é forma antiga e ainda hoje corrente, maxime em Portugal.

h) imperativo dos verbos em -zer, -zir.
Podem perder o -e na 2.a pessoa sing.: faze tu (ou faz); traduze tu (ou
traduz).
São freqüentíssimos os exemplos literários com os verbos dizer, fazer,
trazer
e traduzir.

i) particípio de numerosos verbos.
Existe grande número de verbos que admitem dois (e uns poucos até três) particípios: um regular, terminado em -ado (1.a conjugação) ou -ido
(2.a e 3.a conjugação, cf. pág. 113), e outro irregular, proveniente do latim ou de nome que passou a ter aplicação como verbo. Eis uma relação dessas formas duplas de particípio, indicando-se entre parênteses se ocorrem com a voz ativa ou passiva, ou com ambas:

Infinitivo Particípio regular Particípio irregular
aceitar aceitado (a., p.) aceito (p.), aceite (p.)
assentar assentado (a., p) assento (p.), assente (p.)
entregar entregado (a., p.) entregue (p.)
enxugar enxugado (a., p.) enxuto (p.)

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expressar expressado (a., p.) expresso (p.)
expulsar expulsado (a., p.) expulso (P.)
fartar fartado (a., p.) farto (P.)
findar findado (a., p.) findo (P.)
ganhar ganhado (a., p.) ganho (a., p.)
gastar gastado (a.) gasto (a., p.)
isentar isentado (a.) isento (p.)
juntar juntado (a., P.) junto (a., P.)
limpar limpado (a., P.) limpo (a., p.)
matar matado (a.) morto (a., P.)
pagar pagado (a.) pago (a., p.)
salvar salvado (a., P.) salvo (a., P.)
acender acendido (a., p.) aceso (P.)
desenvolver desenvolvido (a., P.) desenvolto (a., p.)
eleger elegido (a.) eleito (a., P.)
envolver envolvido (a., p.) envolto (a., p.)
prender prendido (a., p.) preso (p.)
suspender suspendido (a., p.) suspenso (p.)
desabrir desabrido desaberto
erigir erigido (a., p.) erecto (p.)
exprimir exprimido (a., P.) expresso (a., p.)
extinguir extinguido (a., p.) extinto (p.)
frigir frigido (a.) frito (a., p.)
imprimir imprimido (a., P.) impresso (a., p.)
inserir inserido (a., p.) inserto (a., p.)
tingir tingido (a., p.) tinto (p.)




OBSERVAÇÕES :

1.a) Em geral emprega-se a forma regular, que fica invariável com os
auxiliares ter e haver, na voz ativa, e a forma irregular, que se flexiona em gênero
e número, com os auxiliares ser, estar e ficar, na voz passiva.

Nós temos aceitado os documentos.
Os documentos têm sido aceitos por nós.

Há outros particípios, regulares ou irregulares, que se usam indiferentemente na
voz ativa (auxiliares ter ou haver) ou passiva (auxiliares ser, estar, ficar), conforme se assinalou entre parênteses.

2.a) Há una poucos particípios irregulares terminados em -e, era geral de introdução recente no idioma: entregue (o mais antigo), aceite, assente,
empregue (em Portugal).

Locução verbal. Verbos auxiliares. - Chama-se locução verbal a combinação das diversas formas de um verbo auxiliar com o infinitivo, gerúndio ou particípio de outro verbo que se chama principal:
hei de estudar, estou estudando, tenho estudado
.

Muitas vezes o auxiliar empresta um matiz semântico ao verbo principal, dando origem aos chamados aspectos do verbo.
Entre o auxiliar e o verbo principal no infinito pode aparecer ou não uma preposição (de, em, por, a, para). Na locução verbal é somente o auxiliar que recebe as flexões de pessoa, número, tempo e modo:
haveremos de fazer, estavam por sair, iam trabalhando, tinham visto.


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Várias são as aplicações dos verbos auxiliares da língua portuguesa:

1 - ter, haver (raramente) e ser (mais raramente) se combinam com o particípio do verbo principal para constituírem novos tempos, chamados compostos, que, unidos aos simples, formam o quadro completo da conjugação da voz ativa. Estas combinações exprimem que a ação verbal está concluída.

Temos nove formas compostas:

Indicativo

a) pretérito perfeito composto: tenho ou hei cantado, vendido, partido;
b) pretérito mais-que-perfeito: tinha ou havia cantado, vendido, partido;
c) futuro do presente composto: terei ou haverei cantado, vendido, partido;
d) futuro do pretérito composto: teria ou haveria cantado, vendido, partido;

Subjuntivo

e) Pretérito Perfeito: tenha ou haja cantado, vendido, partido;
f) Pretérito mais-que-perfeito : tivesse ou houvesse cantado, vendido, partido;
g) futuro composto: tiver ou houver cantado, vendido, partido;

Formas nominais

h) infinitivo composto: ter ou haver cantado, vendido, partido;
i) gerúndio composto: tendo ou havendo cantado, vendido, partido.

O verbo ser só aparece em combinações que lembram os depoentes latinos, sobretudo com verbos que denotam movimento:

"Os cavaleiros eram partidos caminho de Zamora" (A. F. de Castilho, Quadros Históricos, 1, 101).
Era chegada a ocasião da fuga.
São passados
três meses.

2 - ser, estar, ficar se combinam com o particípio (variável em gênero e número) do verbo principal para constituir a voz passiva (de ação, de estado e mudança de estado): é amado, está prejudicada, ficaram rodeados.

3 - os auxiliares acurativos se combinam com o infinitivo ou gerúndio do verbo principal para determinar com mais rigor os aspectos do momento da ação verbal que não se acham bem definidos na divisão geral de tempo presente, passado e futuro:

a) início de ação: começar a escrever, por-se a escrever, etc.;
b) iminência de ação: estar para (por) escrever, etc.;
c) desenvolvimento gradual da ação; duração: estar a escrever, andar escrevendo, vir escrevendo, ir escrevendo, etc.

OBSERVAÇÃO: No Brasil prefere-se a construção com gerúndio (estar escrevendo), enquanto em Portugal é mais comum o infinitivo (estar a escrever)


112

d) repetição de ação: tornar a escrever, costumar escrever (repetição
habitual), etc.;
e) término de ação: acabar de escrever, cessar de escrever, deixar de escrever, parar de escrever, vir de escrever, etc.

Vir de + infinitivo é construção antiga no idioma e valia por voltar de (ou
chegar) + infinitivo: "De amor dos lusitanos encendidas / Que vêm de descobrir o novo mundo" (Camóes, Lusíadas, lX, 40).

Depois passou a significar acabar de + infinitivo e, porque em francês ocorre emprego semelhante, passou a ser, neste sentido, condenado como galicismo pelos gramáticos: "eu, aos doze anos, vinha de perder meu pai" (Camilo apud H. GRAÇA, Factos da Linguagem, 462).

4 - os auxiliares modais se combinam com o infinitivo ou gerúndio do verbo principal para determinar com mais rigor o modo como se realiza ou se deixa de realizar a ação verbal:

a) necessidade, obrigação, dever: haver de escrever, ter de escrever, dever escrever, precisar (de) escrever, etc.

OBSERVAÇÃO: Em vez de ter ou haver de + infinitivo, usa-se ainda, mais
modernamente, ter ou haver que + infinitivo: Tenho que estudar. Neste caso, que, como introdutor de complemento de natureza nominal, funciona como verdadeira preposição.
Não se confunda este que preposição com o que pron. relativo em construções do tipo: nada tinha que dizer, tenho muito que fazer, etc. Para esta última linguagem, ver o que se disse na pág. 245.

b) Possibilidade ou capacidade: poder escrever, etc.
c) vontade ou desejo: querer escrever, desejar escrever, odiar escrever, abominar escrever, etc.
d) tentativa ou esforço: buscar escrever, pretender escrever, tentar escrever, ousar escrever, atrever-se a escrever, etc.
e) consecução: conseguir escrever, lograr escrever, etc.
f) aparência, dúvida: parecer escrever, etc.
g) movimento para realizar um intento futuro (próximo ou remoto): ir escrever, etc.
h) resultado: vir a escrever, chegar a escrever, etc.

Vir a + infinitivo de certos verbos tem quase o mesmo sentido do verbo
principal empregado sozinho: Isto vem a traduzir a mesma idéia (= isto por fim traduz a mesma idéia).

Vir a ser pode ainda ser sinônimo de tornar-se: Ele veio a ser famoso.

NOTA FINAL - Nem sempre a aproximação de dois ou mais verbos constitui
uma locução verbal; a intenção da pessoa que fala ou escreve é que determinará a existência da locução. "Por exemplo, na frase: queríamos colher rosas, os verbos queríamos colher constituirão expressão verbal se pretendo dizer que queríamos colher rosas e não outra flor, sendo rosas o objeto da declaração. Se, porém, pretendo dizer que o que nós queríamos era colher rosas e não fazer outra cousa, o objeto da declaração é colher rosas e a declaração principal se contém incompletamente em queríamos" (José
OITICICA, Manual de Análise, 202-203).


113



Auxiliares causativos e sensitivos. - Assim se chamam os verbos
deixar, mandar, fazer e sinônimos (causativos) e ver, ouvir, olhar, sentir
e sinônimos (sensitivos) que, juntando-se a infinitivo ou gerúndio, não formam locução verbal, mas, muitas vezes, se comportam sinteticamente como tal.

Elementos estruturais do verbo: desinências e sufixos verbais. - Ao
radical do verbo, que é o elemento que encerra a sua significação, se juntam as formas mínimas chamadas desinências para constituir as flexões do verbo, indicadoras da pessoa e número, do tempo e modo.

Chama-se vogal temática aquela indicadora da conjugação:

1.a a : cant-a-r
2.a e : vend-e-r
3.a i: part-i-r

A vogal temática presa ao radical constitui o tema:
canta-r, vende-r, parti-r.

Nem todas as formas verbais possuem a vogal temática, como, por exemplo, a 1.a pessoa singular do presente do indicativo e do subjuntivo.
As vogais e e a em cant-e, vend-a, part-a são desinências temporais (veja
abaixo). Outras vezes a vogal temática sofre variação: o a passa a e no pret. perf. do ind. da 1.a conj. em contato com i, e passa a o em contato com u; cant-ar, cant-e-i, cant-o-u; o e passa a i no pret. imperfeito do ind.
e particípio da 2.a conjugação: vend-e-r, vend-i-a, vend-i-do. A vogal
temática i da 3.a conjugação passa a e quando átono, no pres. ind. (2.a e 3.a
sing. e 3.a plural) e imperativo (2.a p.): part-e-s, part-e, part-e-m, part-e :
se é tônico, nos mesmos casos, funde-se com o i da desinência is da 2.a
pessoa do plural: partis por part-i-is.

O tema é a parte da palavra pronta para receber o sufixo ou a desinência.
Sufixo verbal é o que entra na formação dos verbos derivados: salt-it-ar, real-iz-ar, etc. (Cf. pág. 180).

As desinências modo-temporais são:

a) va (ve) caracteriza o imperfeito do indicativo da 1.a conjugação:
canta-va (1);

(1) Pomos entre parênteses a variante do morferna ou alomorfe. (V. pág. 210).


b) -a- (e), variação do anterior, caracteriza o imperfeito do indicativo da 2.a e 3.a conjugação:
devi-a, parti-a;

c) -ra- (re) átono caracteriza o mais-que-perfeito do indicativo:
canta-ra, vende-ra, parti-ra; cantá-reis;

d) -sse caracteriza o imperfeito do subjuntivo: canta-sse, vende-sse, parti-sse;
 


114

e) -ra- (re) tônico caracteriza o futuro do presente: canta-re-i, canta-rá-s, canta-rã-o, deve-re-i; parti-re-i;
f) -ria- (rie) caracteriza o futuro do pretérito: canta-ria, deve-ria, parti-ria;
9) -e- caracteriza o presente do subjuntivo da 1.a conjugação: cant-e;
h) -a- caracteriza o presente do subjuntivo da 2.a e 3.a conjug.: vend-a, part-a;
i) -r- caracteriza o futuro do subjuntivo: canta-r, vende-r, parti-r.


OBSERVAÇÕES:
1.a) Nem todas as formas verbais se apresentam com desinências e vogal temática.
2.a) As características temporais terminadas em -a (imperf., m.-q.-Perf.
do ind. e futuro apresentam esta vogal alterada em e na 2.a pessoa do plural, graças ao contato com a desinência pessoal -is que provoca a ditongação eis: eu cantava, vós cantáveis; eu devia, vós devíeis; eu partia, vós partíeis; eu cantara, vós cantáreis; eu cantaria, vós cantaríeis).

O mesmo ocorre com a 1.a pess. do fut. do presente: cant-a-re-i.

3.a) As desinências pessoais (cf. abaixo) do pretérito perfeito servem, por acumulação, para caracterizar o tempo do verbo.

As desinências número-pessoais são:

SINGULAR 1.a Pessoa: -,
-o (só no pres. ind.),
-i (sá no pret. perf. do
ind. e futuro do presente) (1)
  2.a pessoa: -s, -es (só no fut. do subj. e inf. flex.),
-ste (só no pret. perf. do ind.)
  3.a pessoa:  -,
-u (só no pret. perf. do ind.)
     
PLURAL 1.a pessoa: -mos
  2.a pessoa: -is -des (só no fut. do subj., ínf. flex. e pres. do
ind. de alguns verbos irregulares),
-stes (só no pret. perfeito do ind.),
-i (no imperativo)
  3.a pessoa: -m (indica que a vogal precedente é nasal),
-em (só no futuro do subj. e inf. flex.),
-ram (só no pret. perfeito do indicativo)

(1) O travessia indica ausência de desinência.



Observações sobre as desinências número-pessoais.

1.a pessoa do singular: geralmente falta a desinência de 1.a pessoa do singular, exceto no presente do indicativo, onde aparece a desinência -o:
cant-o, vend-o, part-o

No pretério perfeito do indicativo e futuro do presente aparece a desinência -i:
cante-i, vend-i, part-i
canta-re-i, vende-re-i, parti-re-i

2.a pessoa do singular: a desinência é -s; no futuro do subjuntivo e infinitivo aparece -es e no pretérito perfeito do indicativo -ste :
cant-a-s, cant-a-r-es, cant-a-ste.
vend-e-s, vend-e-r-es, vend-e-ste.
part-e-s, part-i-r-es, part-i-ste.
 


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