II - Morfologia

A) Classes de vocábulos


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2 - ADJETIVO

Adjetivo é a expressão modificadora que denota qualidade, condição ou estado de um ser:

"Oceano terrível, mar imenso
De vagas procelosas que se enrolam
Floridas rebentando em branca espuma
Num pólo e noutro pólo" (G. DIAS).

Locução adjetiva - é a expressão formada de preposição + substantivo com valor de um adjetivo:

Homem de coragem = homem corajoso
Livro sem capa = livro desencapado
"Era uma noite medonha,
Sem estrelas, sem luar" (G. DIAS).
Homem de cor

Note-se que nem sempre encontramos um adjetivo de sentido perfeitamente idêntico ao de locução adjetiva:

Colega de turma.

Adjetivo explicativo e restritivo (1). - O adjetivo pode ser explicativo ou restritivo.

(1) A NGB não divide os adjetivos em explicativos e restritivos, fizemo-lo aqui porque esta distinção é necessária para casos de pontuação, de sintaxe e de estilística (cf. págs. 228-229).

EXPLICATIVO é o que designa uma qualidade, condição ou estado essencial ao ser:

Homem mortal - Água mole - Gelo frio

RESTRITIVO o que designa qualidade, condição ou estado acidental ao ser:

Homem bom - Água morna - Gelo pequeno

Substantivação do adjetivo. - Certos adjetivos são empregados sem qualquer referência a nomes expressos como verdadeiros adjetivos. A esta passagem de adjetivos a substantivos chama-se substantivação:

"A vida é combate
que os fracos abate,
Que os fortes, os bravos,
Só pode exaltar" (G. DIAS).


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Flexões do adjetivo. - Como o substantivo, o adjetivo pode variar em número, gênero e grau.

Número do adjetivo. - O adjetivo acompanha o número do substantivo a que se refere:

aluno estudioso, alunos estudiosos.

O adjetivo portanto, conhece os dois números que vimos no substantivo: o singular e o plural.

 Formação do plural dos adjetivos

Aos adjetivos se aplicam as mesmas regras de plural dos substantivos.
Quanto aos adjetivos compostos, lembraremos que normalmente só o último varia:

amizades luso- brasileiras, reuniões lítero-musicais.

Variam ambos os elementos, entre outros exemplos,

surdo-mudo, verde-claro, verde-escuro, verde-gaio:
surdos-mudos, verdes-claros, verdes-escuros, verdes-gaios.

Gênero do adjetivo. - O adjetivo concorda também em gênero com o substantivo a que se refere. Conhece, assim, os gêneros comuns, ao substantivo: masculino e feminino.

Formação do feminino dos adjetivos. - Os adjetivos uniformes são os que apresentam uma só forma para acompanhar substantivos masculinos e femininos. Geralmente estes uniformes terminam em -a, -e, -1, -m, -r, -s, e -z:

povo lusíada nação lusíada
breve exame breve prova
trabalho útil ação útil
objeto ruim coisa ruim
estabelecimento modelar escola modelar
homem audaz mulher audaz
conto simples história simples


Exceções principais: andaluz, andaluza; bom, boa; chim, china; espanhol, espanhola.

Quanto aos biformes, isto é, que têm uma forma para o masculino e outra para o feminino, os adjetivos seguem de perto as mesmas regras que apontamos para os substantivos. Lembraremos aqui apenas os casos principais:


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a) Os erminados em -ês, -or, e -u acrescentam no feminino um a, na maioria das vezes.

chinês, chinesa; lutador, lutadora; cru, crua.

Exceções:

1) cortês, descortês, montês e pedrês são invariáveis;
2) incolor, multicor, sensabor, melhor, menor, pior e outros são invariáveis. Outros em -dor ou -tor apresentam-se em -triz: motor, motriz (a par de motora, conforme vimos nos substantivos); outros terminam em -eira: trabalhador, trabalhadeira (a par de trabalhadora). Superiora (de convento) usa-se como substantivo.
3) hindu é invariável; mau faz .

b) Os terminados em -eu passam, no feminino, a -éia:

europeu, européia; ateu, atéia.

Exceções: judeu, judia; sandeu, sandia
tabaréu faz tabaroa; réu faz .

c) Alguns adjetivos também, no feminino, mudam a vogal tônica fechada o para aberta:

laborioso, laboriosa; disposto, disposta.

Grau do adjetivo. - Há três graus na qualidade expressa pelo adjetivo: positivo, comparativo e superlativo.

O POSITIVO enuncia simplesmente a qualidade:

O rapaz é cuidadoso.

O COMPARATIVO compara qualidade entre dois ou mais seres estabelecendo:

a) uma igualdade:

o rapaz é tão cuidadoso quanto (ou como) os outros.

b) uma superioridade:

à rapaz é mais cuidadoso que (ou do que) os outros.

c) uma inferioridade:

o rapaz é menos cuidoso que (ou do que) os outros.

O SUPERLATIVO pode:

a) ressaltar, com vantagem ou desvantagem, a qualidade do ser em relação a outros seres:

O rapaz é o mais cuidadoso dos (ou dentre os) pretendentes ao emprego.
O rapaz é o menos cuidadoso dos pretendentes.

b) indicar que a qualidade do ser ultrapassa a noção comum que temos dessa mesma qualidade:

O rapaz é muito cuidadoso.
O rapaz é cuidadosíssimo.


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No primeiro caso, a qualidade é ressaltada em relação ou comparação com os outros pretendentes. Diz-se que o superlativo é relativo.
Forma-se o superlativo relativo com a intercalação do adjetivo nas fórmulas

 o mais ... de (ou dentre), o menos ... de (ou dentre).

No segundo caso, a superioridade é ressaltada sem nenhuma relação com outros seres. Diz-se que o superlativo é absoluto ou intensivo.

O superlativo absoluto pode ser analítico ou sintético.
Forma-se o analítico com a anteposição de palavra intensiva

(muito, extremamente, extraordinariamente, etc.)

ao adjetivo: muito cuidadoso.

O sintético é obtido por meio do sufixo -issimo (ou outro de valor intensivo) acrescido ao adjetivo no grau positivo: cuidadosíssimo.

Quanto ao sentido, cuidadosíssimo diz mais, é mais enfático do que muito cuidadoso. Na linguagem coloquial, se desejamos que o superlativo absoluto analítico seja mais enfático, costumamos repetir a palavra intensiva:

Ele é muito mais cuidadoso.


O meio termo entre estes dois superlativos (muito cuidadoso - cuidadosíssimo)
é obtido com a fórmula mais do que cuidadoso:

"Estas e outras argüições, complicadas com os procedimentos mais do que
ásperos
da expulsão do coleitor Castracani em 1639, não concorreram pouco para
alienar de todo o ânimo das populações ..." (R. DA SILVA, Hist. Port, IV, 75-6).

Alterações gráficas no superlativo absoluto. - Ao receber o sufixo
intensivo, o adjetivo no grau positivo pode sofrer certas modificações:

a) os terminados em -a, -e, -o perdem essas vogais:

cuidadosa - cuidadosíssima
elegante - elegantíssimo
cuidadoso - cuidadosíssimo

b) os terminados em -vel mudam este final para -bil:

terrível - terribilíssimo
amável - amabilíssimo

c) os terminados em -m e -ão passam respectivamente a -n e -an-:

comum - comuníssimo
são - saníssimo

d) os terminados em -z passam esta consoante a -c-:

feroz - ferocíssimo
sagaz - sagacíssimo

 

Afora estes casos, outros há onde os superlativos se prendem às formas latinas. Apontemos os mais freqüentes:


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acre - acérrimo
amargo
- amaríssimo
amigo
- amicíssimo
antigo
- antiqüíssimo
áspero
- aspérrimo
benéfico - beneficentíssimo
benévolo - benevolentíssimo
célebre - celebérrimo
célere - celérrimo
cristão - cristianíssimo
cruel - crudelíssimo
difícil
- dificílimo
doce
- dulcíssimo
fiel
- fidelíssimo
frio
- frigidíssimo
geral
- generalíssimo
honorífico - honorificentíssimo
humilde
- humílimo
incrível
- incredibilíssimo
inimigo
- inimicíssimo
íntegro
- integérrimo
livre - libérrimo
magnífico - magnificentíssimo


magro - macérrimo
malédico - maledicentíssimo
maléfico
- maleficentíssimo
malévolo
- malevolentíssimo
mísero - misérrimo
miúdo
- minutíssimo
negro - nigérrimo
nobre - nobilíssimo
parco - parcíssimo,
pessoal - personalíssimo
pobre - paupérrimo
pródigo prodigalíssimo
provável - probabilíssimo
público - publicíssimo
sábio - sapientíssimo
sagrado - sacratíssimo
salubre - salubérrimo
são - saníssimo
simples - simplicíssimo
soberbo - superbíssimo
tenaz - tenacíssimo
tétrico - tetérrimo

Ao lado do superlativo à base do termo latino, pode circular o que procede do adjetivo no grau positivo acrescido da terminação -íssimo:
agílimo - agilíssimo
antiqüíssimo - antiguíssimo
crudelíssimo - cruelíssimo
dulcíssimo - docissimo
facílimo - facilíssimo
humílimo - humildíssimo
macérrimo - magríssimo
nigérrimo - negríssimo
paupérrimo - pobríssimo

Obs.: Chamamos a atenção para as palavras terminadas em -io não precedido de e que, na forma sintética, apresentam dois is:

sério - seriíssimo
precário - precariíssimo
frio - friíssimo
necessário - necessariíssimo

Tendem a fixar-se as formas populares seríssimo (coisa seríssima),
necessaríssimo e semelhantes, com um i apenas (*).

(*) "A falsa noticia do falecimento de Gonçalves Dias teve a boa
conseqüência de mover o Governo a aliviar-lhe à situação material, que era precaríssima
"  (M. BANDEIRA, Poesia e Prosa, ed. Aguilar, 11, 778).
 

Comparativos e superlativos irregulares. - Afastam-se dos demais na sua formação de comparativo e superlativo os adjetivos seguintes:

Positivo Comparativo de superioridade Superlativo absoluto Superlativo relativo
bom melhor ótimo o melhor
mau pior péssimo o pior
grande maior máximo o maior
pequeno menor mínimo o menor

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 Não se diz mais bom nem mais grande em vez de melhor e maior; mas podem ocorrer mais pequeno, o mais pequeno, mais mau, por menor, o menor, pior.

Ao lado dos superlativos o maior, o menor, figuram ainda o máximo e o mínimo que se aplicam a idéias abstratas e aparecem ainda em expressões científicas, como a temperatura máxima, a temperatura mínima, máximo divisor comum, mínimo múltiplo comum, nota máxima, nota mínima.

Em lugar de mais alto e mais baixo usam-se os comparativos superior e inferior; por o mais alto e o mais baixo, podemos empregar os superlativos o supremo ou o sumo, e o ínfimo.

Comparando-se duas qualidades, ou ações, empregam-se mais bom, mais mau, mais grande e mais pequeno em vez de melhor, pior, maior, menor:

É mais bom do que mau (e não: é melhor do que mau)
A escola é mais grande do que pequena
Escreveu mais bem do que mal
Ele é mais bom do que inteligente.

Por fim, assinalemos que depois dos comparativos em -or (superior, inferior, anterior, posterior, ulterior) se usa a preposição a:

Superior A ti, inferior AO livro, anterior A nós

Repetição de adjetivo com valor superlativo. - Na linguagem coloquial pode-se empregar, em vez do superlativo, a repetição do mesmo adjetivo:

O dia está belo belo (= belíssimo)
Ela era linda linda (= lindíssima).

Proferindo-se estas orações, dá-se-lhes um tom de voz especial para melhor traduzir a idéia superlativa expressa pela repetição do adjetivo.
Geralmente consiste na pausa demorada na vogal da sílaba tônica.

Comparações em lugar do superlativo. - Para expressarmos mais vivamente o elevado grau de uma qualidade do ser, empregamos ainda comparações que melhor traduzem a idéia superlativa:

Pobre como Jô (= paupérrimo), feio como a necessidade (feiíssimo), claro como água, escuro como breu, esperto como ele só, malandro como ninguém.

Usam-se ainda certas expressões não comparativas: podre de rico, feio a mais não poder, grande a valer.

Adjetivos diminutivos. - As formas diminutivas de adjetivos podem adquirir valor de superlativo:

Blusa amarelinha, garoto bonitinho; "É bem feiozinho, benza-o Deus, o tal teu amigo !" (A. de Azevedo).